Quatro episódios infames que marcaram a TV brasileira em 2017

Folha de S. Paulo-Ilustrada

mauricio stycer


Qualquer retrospectiva sobre o ano de 2017 na televisão não pode deixar de mencionar quatro episódios infames. Eles não chegam a representar novidade em matéria de comportamento humano, mas sinalizam mudanças importantes na forma como são encarados.


No final de fevereiro, em meio à exibição do "The Voice Kids", o cantor Victor Chaves, um dos jurados da atração, foi acusado pela própria mulher de agressão. Segundo a Globo, ele logo pediu afastamento do trabalho, mas o programa já tinha alguns episódios gravados com a sua presença.


A solução foi ao estilo "soviético": reeditou-se a atração, eliminando falas e o seu rosto. Victor atua em dupla com o irmão Leo, que também era jurado. Por duas semanas, o "The Voice Kids" virou um "Frankenstein", com planos em que Victor aparecia sem cabeça, enquanto o irmão dava veredictos sobre as crianças no palco.


Em julho, a Globo anunciou que a dupla Simone e Simaria substituirá Victor e Leo na nova temporada, em 2018.


No dia 3 de abril, a Globo informou em nota e por meio de seus telejornais que o ator José Mayer foi suspenso por tempo indeterminado de atuar em qualquer produção da emissora.


A decisão ocorreu quatro dias depois que a figurinista Su Tonani publicou, em blog na Folha, um texto relatando um longo episódio de assédio que sofreu.


"Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados", escreveu ela, até que "em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália".
















 

Reprodução/Instagram/caiapitanga


 

 



Funcionárias da Globo protestam contra caso de assédio envolvendo o ator José Mayer



O relato provocou uma onda de protestos sem precedentes dentro da própria Globo. Atrizes, apresentadoras e diretoras famosas se reuniram para pressionar a emissora e divulgaram nas redes sociais uma palavra de ordem forte: "Mexeu com uma, mexeu com todas. Chega de assédio".


Um protesto público nos estúdios chegou a ser articulado, mas a emissora o esvaziou ao anunciar a decisão de suspender Mayer.


Uma semana depois, no dia 10 de abril, a Globo anunciou a eliminação do médico Marcos Harter da 17ª edição do "Big Brother Brasil". Desta vez, a decisão foi tomada 48 horas depois de o público assistir a cenas aterrorizantes de assédio e coação sobre a estudante Emilly Araujo.


Apesar da indignação que tomou as redes sociais, a emissora hesitou, inicialmente, em expulsá-lo. E só agiu depois que uma delegada solicitou cópia dos vídeos.


O caso foi relatado pelo "Jornal Nacional" e, em seguida, Tiago Leifert informou no "BBB" que "ficaram comprovados indícios de agressão física".


Por fim, no dia 8 de novembro, a emissora comunicou ao público, no "Jornal da Globo", que o apresentador William Waack foi afastado de sua funções por "comentários, ao que tudo indica, de cunho racista".


Um ano antes, exatamente, Waack havia sido gravado numa conversa informal, antes de entrar no ar, ao vivo, reclamando do barulho de uma buzina. "Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou nem falar, porque eu sei quem é"¦ É preto. Coisa de preto!"


Dessa vez, entre a divulgação do vídeo e a decisão da emissora, se passaram cerca de 12 horas.


Ao longo de todo o ano, a Globo divulgou inúmeras mensagens institucionais de combate à violência contra mulheres, ao assédio sexual e ao racismo e inseriu os três temas em diferentes novelas e séries.


 


A forma como reagiu aos casos reais mostra coerência e parece indicar que está vacinada. 

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